O jogo hipócrita do cinema industrial
John Lemon
No século XX a produção mais importante não foi a relacionada a bens materiais, mas a bens simbólicos, imaginários, dirigidos para a formação subjetiva da massa, que evolui no percurso da pós-modernidade para algo mais próximo de uma multidão, com sua macrossemelhança e sua microdiversidade (Negri & Hardt).
No século XX a produção mais importante não foi a relacionada a bens materiais, mas a bens simbólicos, imaginários, dirigidos para a formação subjetiva da massa, que evolui no percurso da pós-modernidade para algo mais próximo de uma multidão, com sua macrossemelhança e sua microdiversidade (Negri & Hardt).
O cinema foi fundamental no processo. Forma avançada de
sedução, muito mais eficaz do que o texto puramente escrito, a magia das telas
migrou para a TV e para as tecnologias digitais, dispersando o impacto inicial
da tela gigantesca e dos truques de sensibilização pela câmera e pelo som, isso
a partir da década de 1930. Hoje, o jogo constante de imagens galvaniza a
atenção dos cidadãos, sejam urbanos ou rurais, mas principalmente os urbanos.
Houve um tempo, porém, em que o acesso ao sonho, ou ao aprendizado de um sonho
específico, se dava nas salas escuras do cinema, com telas especiais e efeitos
de sensibilização, que iam muito além da trilha sonora ou do enquadramento de
câmera.
A força do cinema na formação do caráter subjetivo do ente
humano contemporâneo foi incomensurável no século XX. E, talvez não por acaso,
esse mesmo século se caracterizou, segundo Nelson Rodrigues, como o da ascensão
fulminante do idiota. Afinal, foi o idiota que o cinema comercial tentou formar
todo esse tempo.
Mais por sua hipocrisia do que por seus maravilhosos feitos,
a indústria cinematográfica conseguiu estabelecer um jogo perverso com o
público. Fornecia-lhe sonhos inalcansáveis modulados em mensagens que
agenciavam sua subjetividade. Trata-se de uma forma de drogadição, lícita e
supostamente benigna. E, ao mesmo tempo, um autêntico conto do vigário, pois o
que é oferecido vai além do entretenimento, formata desejos, emoções e sonhos,
o que significa dizer que exerce inesperado e eficiente forma de controle sobre
aquilo que usualmente chamamos “indivíduo” e, como parece claro, o insula na
massa como espelho de identidades.
Nesse jogo, há um algoz e um supliciado. O algoz sorri, canta
e dança, sente e transmite sentimentos. A vítima goza no jogo pervertido de se
saber, ainda que difusamente, lesada na sua soberania, na languidez de se dar
de corpo e alma à tortura que lhe fará sentir uma angústia permanente e
defender, com unhas e dentes, o direito de ser vítima de tão agradável
suplício.
Por trás de tudo, a indústria com seus tycoons.
Um trecho do livro “Two weeks in another town”, de Irwin
Shaw, é ilustrativo do mecanismo de produção industrial da cultura, logo da
subjetividade. Mostra como é interessante a dicotomia entre a forma de vida dos
produtores e o que transmitem nos filmes. Está na fala de um dos personagens do
livro, Jack Andrus, um ex-ator que se envolve novamente com a indústria do
cinema.
“ (...) se alguém disser uma palavra verdadeira num filme, é o mais puro acidente. Não se pode ofender ninguém, nem os ricos, nem os pobres, nem o trabalho, nem o capital, nem os judeus, nem os gentios, nem as mães, nem os padres, nem os políticos, nem os industriais, nem os ingleses, nem os alemães, nem os turcos, nem ninguém.
O letreiro em cima de todos os portões dos estúdios é covardia, escrito em letras de fogo. Por isso ninguém diz uma palavra de verdade sobre nenhum assunto. Desde que vim para cá, quase não encontrei ninguém com mais de vinte anos que não se tenha casado pelo menos duas vezes e, no entanto, todos os filmes que aparecem são um poema em louvor da monogamia.
Todo mundo entre o oceano Pacífico e a prefeitura de Los Angeles está procurando fazer dinheiro com tanto afinco que só tem tempo para respirar aos domingos e, no entanto, a se acreditar nos filmes, o único meio de se ser feliz é viver num sótão com doze dólares por semana. Aqui, noventa por cento das pessoas têm tanto medo de Hitler que têm pesadelos com ele todas as noites do ano, mas em nenhum dos filmes que eu vi até agora houve uma sugestão de que ele possa ser mais perigoso do que a minha tia. À hora de almoço, no Lucey’s Bar, há mais conversas contra Franco do que nas trincheiras em Madri, e todas as vezes que alguém anuncia que vai fazer um filme sobre a Guerra Civil na Espanha, uma carta de um seguidor do Padre Coughlin acaba com isso.
Cristo, esta sala está cheia de gente que passou a maior parte de suas vidas trapaceando, desrespeitando as leis, dormindo com as mulheres dos outros e, no entanto, estão todos gordos, felizes, respeitados como eles só, e ficam a fazer filmes em que o crime nunca compensa, em que o criminoso e sempre castigado, em que uma moça tem de morrer ou acabar numa vida de vergonha se dormir com o noivo antes de se casar. É a primeira vez na história da arte que tanta gente, tanta riqueza e tanto talento e maquinaria se reuniram num lugar para criar um disfarce completo... a máscara de um bilhão de dólares, o grande sorriso feliz americano...”
Não há verdades, apenas emoções, muito menos ética, apenas
moralismo. Essa é a cultura da indústria cinematográfica industrial até hoje. A
mesma que a maior parte de nós teve e tem cotidianamente diante de si e que
produz a submissão dos indivíduos ao jogo perverso ditado pela ganância e sua
hipocrisia.



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