Empreendedorismo fundamentalista quer paraíso já, mas promove infelicidade a longo prazo

John Lemon

Em sequência ao publicado ontem sobre o tema do fundamentalismo empreendedor (ou empreendedorismo fundamentalista), agora são expostos aqui alguns dos questionamentos “cítricos” professados por um conhecido intelectual em relação a essa religião que vem arregimentando pessoas que, em vez de trilhar o caminho da razão, da sanidade e da lucidez, abraçam teses simplórias, tolas e profanas como as professadas nessa teologia de grandeza miúda

Em comunicação anterior comentamos que a crítica tecida por um intelectual brasileiro à seita do empreendedorismo foi rebatida com um sofisma. Em vez de responder ao foco da questão levantada, o que foi discutido foi o significado do termo “empreendedorismo”, do verbo “empreender” etc. Nada ou pouco se disse sobre a questão fundamental envolvida no caso, o que não surpreende, já que a teologia do empreendedorismo parece ser eminentemente fundamentalista e, como sabemos, os fundamentalistas desconversam ou rangem os dentes quando se trata de fundamentar o que pregam. Geralmente, gritam para abafar as críticas e o próprio pensamento.

O que o intelectual disse é que se criou uma inusitada seita profana, essencialmente material, que promete a salvação aos que são empreendedores, isto é, na prática, aos servos que se dedicam incansavelmente a fazer negócios e negociatas, inspirados na experiência narrada nos livros de alguns grandes empreendedores que, neles, revelam pequenos e grandes golpes que tramaram e com os quais empreenderam e se tornaram gênios do empreendedorismo.

Virtude demais atrapalha
Steve Jobs, por exemplo, um dos “santos” dessa religião, parece ter fundado a Apple com dinheiro conseguido de forma ilegal (com a sua invenção, a blue box, que permitia dar telefonemas internacionais sem custos e, dizem, passando a conta para outrem), o que não desmerece, sem dúvida, o seu sucesso, pois os fiéis dessa religião parecem perceber que essa “armação” já mostrava o quão perseverante era o espírito empreendedor de Jobs. Da mesma forma, outros bem sucedidos, cujas imagens certamente decoram os vitrais das igrejas empreendedoristas, também começaram a vida com atividades nada recomendáveis, sendo que há quem afirme terem continuado suas vidas criminosas mesmo depois de vencer na vida...

Tudo bem, então, pois uma teologia material como essa tende a não dar muita bola para questões relacionadas à virtude e que não estejam chanceladas pelas conquistas financeiras. Bons atos são coisas recomendáveis, é claro, mas quando forem possíveis e quando não atrapalharem os negócios. Os vícios, ao contrário, merecem teorizações, pois, segundo um dito clássico, a boa sociedade funciona na base dos “vícios privados, benefícios públicos”, ou seja, a ambição desmedida e o egoísmo seriam geradores do progresso econômico e, assim, da felicidade.

Salvação aética
Tudo isso significa que moral e ética são temas concernentes em todos os cantos, mas nos templos do empreendedorismo fundamentalista são meros penduricalhos, conceitos vazios, frases feitas e ideias prontas que funcionam, como os ternos engomados e gravatas italianas, apenas para causar uma boa impressão (ou seja, mostrar o que interessa e esconder o que interessa). Por isso, Eduardo Giannetti, autor de um livro no qual discute a lógica dos “vícios privados, benefícios públicos”, nos incentiva a pensar o quanto a prosperidade pode ou deve ser buscada sem a referência ética.

Os atos ilícitos, como os cometidos por Jobs e outros, são, nesse contexto, algo como vícios saudáveis e, em certos casos, inevitáveis. Algo como a masturbação ou a cleptomania, coisas que podem feitas, contanto que não sejam vistas nem citadas em conversas cotidianas. Depois, as virtudes são úteis para o futuro, muitas vezes para o além-túmulo, porém o empreendedor quer saber de empreender aqui e agora, pois não tem tempo a perder em sua empreitada rumo ao sucesso. Todo o mal que cometer nesse afã parece ser perdoável e representar um exemplo da perseverança e da criatividade necessárias para ser um vencedor. Além disso, esses atos espúrios parecem mostrar o quanto o bom empreendedor deve estar preparado para “sair da caixinha”.

Farinha pouca...
A “Igreja Empreendedorista” em questão parece ser uma aplicação da mentalidade protestante do século XVI, aquela que Max Weber diz ter inspirado o capitalismo, e se definir com a base filosófica do provérbio lusitano “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Quem não for capaz de defender o seu pirão diante do racionamento de farinha acabará perecendo ou, na melhor das hipóteses, sobreviverá como subalterno dos mais capazes. Se não se conformar com o próprio destino e tentar se rebelar, encontrará a força policial, conhecerá o aparato judicial e ganhará ingresso para uma temporada na penitenciária.

Como toda seita, essa “igreja” oferece promessas de salvação, não para a alma eterna, pois empreendedores não querem saber de nada eterno ou do além, mas para a fruição imediata e terrena. Mas, se há o lado da salvação, há o da perdição e ambos estão relacionados estritamente à conduta individual. Tanto o sucesso quanto o fracasso estão, nessa religião, vinculados ao indivíduo e somente a ele. É dele a responsabilidade e o compromisso com o empreendedorismo e o sucesso resultante, bem como é dele a culpa por não ter se comprometido o suficiente com essa missão hierática.

Paraíso já!
Para doutrinar os indivíduos, essas ovelhas perdidas que necessitam de orientação, inventaram os coachs, que, conforme o intelectual citado disse em palestra, ficam o tempo todo repetindo frases que devem nos certificar que somos capazes, que podemos realizar determinadas tarefas que nos parecem execráveis ou impossíveis e que a recompensa deve nos focar nas metas que devemos ter. Lembram-nos, como fazem os sacerdotes das demais seitas e igrejas existentes, as que se dedicam à salvação da alma, que precisamos cultivar determinadas “qualidades”. Só que, enquanto os guias espirituais tradicionais nos falam de valores relacionados a virtudes como a da correção, a da bondade e a da compaixão (o que não garante que sejam coerentes nisso), os coachs repetem que devemos ser proativos e criativos, que devemos “vestir a camisa” e participar da “sinergia” característica da equipe que trabalha unida e focada nos resultados.

Toda essa história faz pensar que, em contraposição às promessas de vida plena e eterna ao lado do Criador, usuais nas religiões diversas que conhecemos, a igreja do empreendedorismo não quer saber desse paraíso futuro e incerto. Os fieis dessa seita fundamentalista querem o paraíso já, na mão, em dólares, euros ou em qualquer outra moeda forte. Mas, o intelectual que ligou o ventilador, para espalhar aos sete ventos o que é e o que caracteriza esse culto profano, também disse, com razão, que essa mentalidade leva preferencialmente à infelicidade e à depressão – grave doença que é simplesmente a manifestação contemporânea da desgraça e do desespero causados pela ausência de sentido na vida e de perspectivas saudáveis e reais de realização.

Egos frágeis, certezas fortes
De forma clara, o empreendedorismo como doutrina de salvação não leva a qualquer satisfação além do patológico agraciamento de um ego doente no contexto bem definido por Charles Bukowski:

"As pessoas me cansam, estão sempre se sentido insultadas. Se você não as alimenta com o que elas querem ouvir, logo tomam tudo como uma afronta".

E isso é verdade, pois egos frágeis, como os dos empreendedores fundamentalistas, devem estar blindados pelos muros do umbigo. Contrariá-los é inútil, pois só costumam ver ou ouvir o que querem. O que não está na doutrina dos vencedores não existe e, se insiste, deve ser eliminado como infiel, como nos "bons tempos" das Cruzadas cristãs.

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