A novidade no mercado é a velha religião do Mercado

John Lemon

Um interessante fenômeno religioso contemporâneo é o dos idólatras do empreendedorismo, essa seita pagã que ergue altar ao ícone do cifrão e defende com unhas e dentes a liberdade que falta aos seus fiéis – mas não há novidade nisso, apenas a expansão do culto ao deus Mercado e sua sorrateira mão invisível

Dia desses, um intelectual brasileiro teceu críticas à religião que se constituiu em torno da noção de empreendedorismo e levantou o debate, tornando-o aberto. Fala-se de uma espécie de fundamentalismo que se manifesta em cultos motivacionais de inspiração empresarial e corporativa das mais diversas espécies e com os mais diversos objetivos, tendo, como altar, o sucesso financeiro. Mas, não apenas. Como todo arranjo dogmático, a sua influência alcança a intimidade daqueles que se envolvem com isso e condiciona suas vidas no sentido de satisfazer os preceitos autoritários que formatam a doutrina.

Quem está adstrito a essa mentalidade de subordinação a determinados dogmas, não percebe o quanto estes são influentes na sua vida e, curiosamente, afirma sua liberdade recusando acreditar que se encontra presa de uma doutrina autoritária. Essa, aliás, é a característica marcante desse culto ao sucesso: aquele que o pratica não entende o quanto se limita pelos preceitos religiosos que segue e se acredita livre: total e irremediavelmente livre e defensor intransigente da liberdade. Sua liberdade, porém, não existe a não ser como ícone sagrado de seu discurso, pois que o devoto desse estranho empreendedorismo venera exatamente a liberdade que não tem.

Palavras são palavras
A manifestação do referido intelectual vem em boa hora, pois tocam nesse tema que se torna cada vez mais preocupante, afinal essa religiosidade fundamentalista engaja homens e mulheres racionais, morais e sãos em um transe que não raro culmina na depressão grave, quando não leva à morte por complicações relacionadas ao estresse constante. No entanto, houve quem se indignasse com o intelectual, mas, ingenuamente, essa indignação se manifestou na defesa do conceito de “empreender”, como a ponderação do crítico fosse dirigida a uma palavra e seu significado.

Evidentemente, nada há contra o termo. Não se trata de uma discussão acerca da etimologia da palavra, de sua sintaxe ou forma gramatical. A questão é outra e diz respeito ao uso do conceito para seduzir e remeter a uma postura alienada perante a realidade. Empreender é um verbo que fala de realizar algo, usualmente uma tarefa trabalhosa, de executar, fazer ou pôr em prática uma ação. Opõe-se a ficar no mesmo lugar, na imobilidade, logo tende a ser um antídoto da alienação e provavelmente por isso o termo é tão usado pelos sacerdotes dessa religião cujo epicentro é o umbigo de grandes e inescrupulosos empresários e se manifesta fundamentalmente no “se dar bem”, expressão que repercute o sentido atual e psicopático do “lucro acima de tudo”.

Então, aplausos para o ato de empreender e para quem empreende. Mas, se o termo é usado como puro ícone de alienação, como “bezerro de outro”, aí, sim, há uma corrupção semântica e, pior, uma prática nefasta e profundamente desonesta por parte de quem tem consciência do que está fazendo.

Sem tantos sofismas, please
Repito: não é de conceitos etéreos que falamos, mas de outra coisa, de um fundamentalismo alienante que se expandiu e que conquistou massas de indivíduos urbanos, que canaliza tudo quanto possa para o marketing pessoal ou empresarial e comunga em torno de ideias que contaminam as relações com coisas e pessoas (personalizando as coisas e coisificando as pessoas), transformando tudo o quanto possa em mercadoria e resumindo os contatos humanos a transações comerciais. De certo modo, é uma religião que tem origem na mentalidade burguesa, eminentemente fundada no comércio e leva ao extremo a materialização da “Ética Protestante”, conforme compreendido no texto de Max Weber e apontado pelo autor como a base do “Espírito do Capitalismo”.

Discutir a semântica do termo, nesse caso, é sofismar, isto é, usar de subterfúgios para encobrir a realidade daquilo que está efetivamente se falando. 

A religião do cifrão
Falamos, então, de uma forma religiosa cujo ícone bem pode ser definido como um cifrão, embora seus efeitos sejam bem mais profundos e íntimos do que os que atingem meramente o bolso ou a bolsa. É uma prática devocional que atinge o íntimo do sujeito (pensamentos, afetos e sonhos), gerando, como sintomatologia, diversos males que se manifestam essencialmente tendo a quantificação compulsiva como pano de fundo, com a obsessão pelo sucesso pessoal como valor máximo.

É, então, uma beatice quantificadora em essência e desproblematizadora, isto é, simplifica o mais que pode a lógica do mundo, remetendo sempre a lugares comuns e saberes pré-moldados. No entanto, em seus cultos, os sacerdotes dessa teologia malsã falam o oposto, garantindo que os desafios são importantes e devem ser procurados e valorizados como formadores de uma nova era de crescimento pessoal e profissional. Sim, é claro, mas são falsos desafios, pois terminam usualmente solucionados pelas ideias prontas e dogmáticas que alicerçam essa religião.

Ideias prontas, lugares comuns
Entre essas ideias, o feedback tem ocupado local de destaque. Trata-se do velho e saudável hábito de dar consciência a outrem acerca do que foi entendido de sua mensagem ou de sua atitude. Isso, os pais e mães sempre fizeram com os filhos e filhas, assim como tantas outras pessoas. Alguém diz algo que não deveria, você comunica a esse alguém que não se deve falar o que foi dito. Da mesma forma, quando uma pessoa toma uma boa atitude, é de bom tom tecer um elogio, lhe dar consciência de seu bom ato e de suas repercussões.

Desde os tempos das cavernas isso é feito, no entanto, os teólogos da libertação pelo empreendedorismo descobriram a pólvora e fazem palestras e pajelanças motivacionais demoradas sobre o assunto, inserindo no reforço a se fazer o que se deve promessas de que se trata de um expediente adequado para que o fiel dessa seita se eleve espiritualmente.

Bullshit
A proatividade é um dos ídolos mais cultuados nessa forma curiosa de culto. Proativa é aquela pessoa que, segundo a definição predileta dos teólogos empreendedores, se antecipa aos problemas para evitá-los resolvê-los. Problemas, para essa teologia, são coisas que devem ser evitadas, é certo, mas, quando aparecem, devem ser resolvidos, o que corresponde a eliminados. No entanto, há sempre a conversa mole de que os problemas são desafios e levam ao crescimento profissional e pessoal. Bullshit.

Não há sequer um administrador de empresas que preze um problema como forma de crescimento. São, isso sim, consequências inevitáveis de más decisões ou atitudes e têm que ser destruídos, geralmente por quem os criou. Quando você visa o lucro acima de todas as coisas, como uma divindade diante da qual nos ajoelhamos em idolatria, essa conversa de crescimento pouco importa, a não ser que diga respeito ao crescimento da lucratividade. Crescer, para o devoto dessa religião, significa bem servir ao patrão, à corporação e, acima de todo o resto, garantir que as coisas continuem certas e no seu lugar, com o lucro garantido e sempre elevado. Qualquer outra interpretação é conversa fiada e o crescimento pessoal e profissional deve ser encarado, nesses casos, como um mero efeito colateral.

Fliperama neural
Ah, sim, há os “problemas” postos nos dia-a-dia dos “colaboradores” e equipes, “desafios”, “oportunidades de aprendizagem”. Mas, esses não importam tanto, pois não são problemas e já vêm com as soluções definidas pelos lugares comuns e ideias prontas. Não se pode pensar. Pode-se usar qualquer expediente criativo para lidar com conflitos, com essas “oportunidades de aprendizagem”, menos o pensamento, o verdadeiro pensamento, não o fliperama neural de conceitos vazios e desconectados do repertório dos administradores de motivação e produtividade no trabalho. Simplesmente, porque tudo deve se resolver respeitando as regras do jogo, que são definidas por quem manda e dentro das quais as partidas já estão ganhas.

A liberdade do fiel, nessa religião, está circunscrita a termos bastante definidos, mas de limites obscuros. Por conta disso, você pode – e deve – sempre questionar tudo e todos, sim porque para isso foi criado o empowerment, o empoderamento que permite a você participar da gestão corporativa como um cordeiro ou, preferencialmente, como um lobo em pele de cordeiro.

Desaprender a aprender ou aprender a desaprender
Mas, por que as ideias prontas são as preferidas para esses religiosos da lucratividade e do sucesso? Em primeiro lugar, porque não exatamente resolvem os problemas, mas os formatam de modo a que as propostas para solução sejam satisfatórias para o establishment, leia-se a ideologia das corporações, e, é claro, para que os problemas sejam eliminados da vista, mas para que continuem vivos para serem retroalimentados e ressurjam quando for adequado. Todo problema e/ou conflito existente dentro da religião empreendedora é um bem precioso que deve ser utilizado como uma referência negativa do caminho positivo a ser trilhado. Algo como o pecado, do qual jamais nos livramos e que nos persegue por todo tempo e por toda a vida, nos dirigindo a conduta no caminho da santidade.

De certa maneira, a lógica disso é o desaprender a aprender, ou aprender a desaprender, pois já que as soluções estão condicionadas por lugares comuns, as pessoas aprendem a fingir que resolvem seus problemas, desaprendendo como resolvê-los de verdade.

Let it be
Outro motivo que leva os lugares comuns, os conceitos vazios, a serem privilegiados na conduta dos fiéis do empreendedorismo sagrado é que a proposta para solucionar tudo o quanto seja difícil ou problemático deve ser a proatividade, no sentido da prevenção de inconvenientes futuros, mas deve, acima de qualquer outra coisa, estar ligada à desregulamentação de tudo, menos, é claro, da estrutura que garante ganhos desmedidos a alguns e prejuízos contínuos aos demais. Essa estrutura deve ser governada pelo laissez faire, ou seja, pela “ordem natural” das coisas que garante, naturalmente, vantagens para quem tem recursos e desvantagens para quem não os têm. O laissez faire, expressão francesa que é traduzível para o inglês por “let it be” (obrigado John Lennon) e para o português por “deixe estar” (“let do” ou “deixe fazer”, em tradução literal) sempre dá vantagens aos privilegiados.

A lógica é simples: se você está em vantagem, acione o laissez faire que, desse modo, sua vantagem não apenas será mantida, como, por conta do prejuízo dos que estão em desvantagem, será ampliada. Assim, a promessa é a de que se deixarmos a coisa andar livre, usando ideias prontas e vagas estaremos garantindo que tudo ficará no seu lugar, graças a Deus, ou, mais especificamente, graças ao Mercado e sua gloriosa e terrível mão invisível.

Em resumo: o religioso do Mercado, o empreendedor nato, embora se proclame defensor da liberdade e da criatividade, utiliza o lugar comum para solucionar tudo o quanto seja difícil ou problemático. Em consonância às ideias úteis e prontas formuladas pelos liberais, prefere deixar que as coisas se resolvam sozinhas, sem contar que só faz isso quando as coisas estão favoráveis. Por isso o uso tão frequente de lugares comuns como ícones de debate e “soluções corporativas”. Quando estamos navegando com vento a nosso favor, os lugares comuns e ideias prontas caem como luva para manter as coisas como estão e como devem ser, isto é, em nosso favor.

Quando o vento muda, não raro o fiel do empreendedorismo fundamentalista pede socorro ao demônio, leia-se o Estado. Mas, essa já é uma outra interessante história...

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